Já tenho dois meses e oito dias! Viva!
Foi uma caminhada difícil, mas acho que estou me encontrando no mundo e deixando para trás o meu inferno astral.
O ápice do meu sofrimento e de mamãe começou no dia em que fiz dois meses, o dia 21 de dezembro. Minha mãe já sofria por antecipação porque ela ia ficar alguns dias sem a equipe dela; eu angustiado com minha nova vida fora do útero e ainda mais com a terrível azia me queimando o estômago (é, ainda não estou bom do refluxo); nós dois irritados com o terrível calorão. Uma mistura explosiva! Mas mesmo assim minha mãe achava que estava abafando, as minhas roupinhas estavam ficando apertadas. Era dia de consulta com o Dr. Carlos. Papai estava de folga. Lá fomos nós então para o pediatra. O sol queimava lá fora. As ruas de Ipanema apinhadas de gente fazendo compras de Natal. A balança vai estourar, pensou minha mãe. Mas a coisa não andou do jeito que ela quis. Dr. Carlos nos deu um banho de água fria. Eu estava com 4,560 kg e 55,5cm. Na hora que a balança parou, pude ver os olhinhos de preocupação de minha mãe. Não era assim o fim do mundo, disse o doutor, mas eu podia ter engordado mais. Me examinando mais um pouco, Dr. Carlos também desconfiou de uma anemia. Eu estava bem branquinho. Pra completar, achou também que a minha cabecinha estava mais amassadinha de um lado. Fiquei arrasado... Gosto tanto do meu ladinho de dormir... Não ia ter jeito. Faríamos um exame de sangue no dia seguinte, e eu também precisava tomar as vacinas. Ia ser todo picado!
Eis que vem o pior dia da minha vida. Dia seguinte. Chega cedinho lá em casa o homem de branco do laboratório. Vai colher o meu sangue. Ele me olhou assustado, mas mamãe não quis acreditar. Deve saber tirar sangue de bebê. Lisa estava lá em casa. Meu pai estava no banho. As duas seguram meu bracinho. Minha mãe não quer nem olhar. Ela está mais nervosa do que eu. Uma agulhada forte. O homem insiste. Não acha minha veia. Eu choro muito de perder o fôlego. Para tudo, diz a Lisa, o senhor não vai conseguir. O homem fica branco. Sai fugido lá de casa, deixando meu bracinho roxo. Mamãe chora, roda que nem peru tonto dentro de casa. Papai nos recolhe, coloca todo mundo no carro e lá vamos nós para o laboratório. Lá deve ter gente preparada pra tirar sangue de bebê. Dessa vez mamãe não quer entrar. É demais pra ela. Fica do lado de fora. Papai entra comigo na sala. Três moças pra fazer o serviço. Eu choro um pouquinho, mas meu pai não perde o bom humor. Tudo certo. À tarde já saberíamos o resultado. Seguimos então para casa, e minha mãe decide parar no posto de saúde para ver a situação das vacinas. Chegando lá, não havia fila. Meus pais decidiram por mim que hoje seria o dia de mais uma picada. Mais duas, aliás. Uma em cada perninha. Não deu outra, abri o berreiro. Fiquei exausto e traumatizado de tanta picada. Não escapei, é claro, das tais reações à vacina. Tive febre, fiquei molinho, manhoso e irritado por dois dias. No terceiro dia, véspera de natal, fomos dormir na casa da vovó Evelyse. Era a primeira vez que passava a noite fora de casa. Mesmo sendo a casa da minha querida vovó, dei uma estranhada. Além do mais, o trauma havia sido grande. Deixei todo mundo exausto e preocupado. Eu não queria mamar, chorava o tempo inteiro e, ainda por cima, estava mesmo anêmico. Nem o elevador me deixou feliz. Minha mãe saía comigo pra passear duas vezes por dia, maravilhada em poder subir e descer com o carrinho sem fazer esforço. (Ela anda sonhando com um lindo apartamento com porteiro e elevador, e ar-condicionado para os dias de calor. Coisa de madame...Vai entender as mulheres!)Foram enfim dois dias na casa da vovó, até voltar pra casa no dia 25 à noite. Foi então que começou a minha virada. Sim, eu podia reconhecer a minha casa, a minha caminha, o tapete da sala, tudo colorido! Eu estava virando gente! Quando vi meu balancinho treme-treme, me senti o bebê mais feliz do mundo. Papai me colocou ali, já era noite, e ali mesmo fui fechando os olhinhos. Deu tempo pra minha mãe desfazer as malas, organizar tudo do jeitinho que ela gosta e preparar o meu banho. Todo dia ela faz tudo igual e eu estou gostando disso. Acho que somos parecidos nessa coisa certinha - apesar de dar uma bagunçada nela vez por outra. É pra variar um pouco, senão fica chato.
Bem, esse é o resumo da história. Desde então tenho passado muito bem os dias, chorando quando uma coisa não me agrada, é claro. O melhor de tudo é que estou mamando melhor também. Tudo bem que ainda é um sufoco a hora de mamar. Parece uma gincana. Mas eu e minha mãe estamos nos entendo cada vez melhor. Ela agora está mais esperta, captando logo os meus códigos secretos. Até Shantala ela foi aprender por minha causa, ela que nunca foi zen. Ela diz que está cansada, eu sei, eu sei, ela fica louca muitas vezes, ela queria um botãozinho pra me ligar e desligar, eu entendo. Ela odeia o verão. Ela diz também que eu sou agitado, que eu não deixo ela parar na rua pra conversar com os vizinhos, que se o carrinho para eu choro, e se o asfalto é liso eu reclamo. Eu gosto mesmo é de algo trepidante! Mas como é que explica ela ficar me olhando que nem boba quando a gente conversa? Minha mãe me ama! E eu amo ela também!
Hoje eu sou só sorrisos!
Feliz ano novo, amigos!
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